Auta de Souza - Na Capelinha





Auta de Souza - Na Capelinha


Entrou na Igreja sorrindo,

Coberta com um fino véu.

O seu rostinho era lindo

Como o da virgem do Céu.


Foi ajoelhar-se contrita

Ao pé do sagrado altar,

E, com piedade infinita,

Principiou a rezar.


Um doce sorriso veio

Encher-lhe a boca de luz.

Uniu as mãos sobre o seio,

Fitou os olhos na Cruz.


O que dizia... Alguém pode

Adivinhar o que diz

A prece que ao lábio acode

Enquanto a gente é feliz?


Nessa idade, para que

Se reza... (saberei eu?)

A gente reza porque

Também se reza no Céu.


E ela, tão meiga e pura,

Que não conhecia o mal,

E que guardava a ventura

No coração virginal;


Em sua fé de criança

Ingênua e cheia de amor,

Talvez pedisse a esperança

Para os que vivem na dor.


Talvez tivesse gemidos

Para quem vive a chorar,

Para os que vagam perdidos

Nas frias ondas do mar.


E enquanto o lábio querido

Orava piedoso assim,

Do negro olhar comovido

O pranto rolou por fim.


E deslizaram sem calma

As bagas por sua tez,

No desconsolo de um’alma

Que chora a primeira vez.


Su’alma santa onde moram

A Luz, a Inocência e o Bem,

Pedindo pelos que choram

Foi soluçando também.


E compreendendo o segredo

D’aquela doce emoção,

Eu disse baixinho, a medo,

Falando ao meu coração:


Benditos nós que sofremos

Varados por mágoa atroz...

Enquanto assim padecemos

Os anjos pedem por nós.


Auta de Souza (1876-1901)

foi uma poetisa brasileira da 2ª geração romântica.









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