Auta de Souza - Ao cair da noite





Auta de Souza - Ao cair da noite


Não sei que paz imensa

Envolve a Natureza,

N’ess’hora de tristeza,

De dor e de pesar.

Minh’alma, rindo, pensa

Que a sombra é um grande véu

Que a Virgem traz do Céu

Num raio de luar.


Eu junto as mãos, serena,

A murmurar contrita,

A saudação bendita

Do Anjo do Senhor;

Enquanto a lua plena

No azul, formosa e casta,

Um longo manto arrasta

De lúrido esplendor.


Minhas saudades todas

Se vão mudando em astros...

A mágoa vai de rastros

Morrer na escuridão...

As amarguras doidas

Fogem como um lamento

Longe do Pensamento,

Longe do Coração.


E a noite desce, desce

Como um sorriso doce,

Que em sonhos desfolhou-se

Na voz cheia de amor,

Da mãe que ensina a Prece

Ao filho pequenino,

De olhar meigo e divino

E lábio aberto em flor.


Ah! como a Noite encanta!

Parece um Santuário,

Com o lindo lampadário

De estrelas que ela tem!

Recorda-me a luz santa,

Imaculada e pura,

Da grande noite escura

Do olhar de minha mãe!


Ó noite embalsamada

De castas ambrósias...

No mar das harmonias

Meu ser deixa boiar.

Afasta, ó noite amada,

A dúvida e o receio,

Embala-me no seio

E deixa-me sonhar!


Auta de Souza (1876-1901)

foi uma poetisa brasileira da 2ª geração romântica.









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